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O QUE PRECISO SABER SOBRE O DIABETES GESTACIONAL?


Esse é um tema muito importante, já que o Diabetes Mellitus Gestacional ocorre em cerca de 1 em cada 6 gestações em todo o mundo.1




Mas por que ocorre o diabetes gestacional?


Durante a gravidez, ocorrem muitas mudanças no corpo da mãe e o aumento na resistência à insulina é uma delas.2


Para manter a gravidez, a placenta além de ser responsável por fornecer nutrientes ao feto em crescimento, produz uma variedade de hormônios. Alguns desses hormônios, como o lactogênio placentário humano, acabam bloqueando a ação da insulina. Com o bloqueio da insulina ocorre um aumento dos níveis de glicose no sangue materno e essa glicose em excesso pode ter alguns efeitos não só para a mãe, mas também para o bebê.2



À medida que a placenta cresce, mais hormônios são produzidos e a resistência à insulina aumenta. Isso fica mais evidente a partir da 20a-24a semana de gravidez. Normalmente, as células do pâncreas da mãe produzem mais insulina para superar a resistência à insulina na gravidez. Quando a produção de insulina pela mãe não é suficiente para superar o efeito dos hormônios placentários, surge o diabetes mellitus gestacional.2 Com isso, a gestação pode estimular uma intolerância aos carboidratos (nossa principal fonte de energia), sendo este o problema metabólico mais comum na gravidez, podendo variar de condições mais leves a mais graves.3


Algumas mulheres podem já ter essa resistência antes mesmo de engravidar, e começar a gravidez com uma necessidade maior de insulina, o que aumenta a propensão a ter Diabetes Gestacional.4


Os fatores de risco para o Diabetes Gestacional são:3

  • idade materna avançada;

  • sobrepeso, obesidade ou ganho de peso excessivo na gestação;

  • excesso de gordura na região abdominal;

  • histórico familiar de diabetes em parentes de primeiro grau;

  • Diabetes Gestacional em gestações anteriores ou sinais que possam indicar que teve Diabetes Gestacional, como: crescimento excessivo do bebê, produção excessiva de líquido amniótico, hipertensão ou pré-eclâmpsia (complicação que leva à hipertensão e presença de proteínas na urina) na gravidez;

  • histórico de abortos repetidos, malformações, morte fetal ou neonatal;

  • síndrome de ovários policísticos;

  • baixa estatura materna (menor que 1,5m);

  • hemoglobina glicada maior ou igual a 5,9% no primeiro trimestre.


Existe uma situação diferente do Diabetes Gestacional, chamada de “diabetes diagnosticado durante a gravidez” ou "diabetes na gravidez", que inclui mulheres com diabetes (de acordo com os critérios padrão para diagnóstico fora da gravidez) mas que foram diagnosticadas com diabetes pela primeira vez durante a gravidez.1,5


Atenção futuras mamães!5


COMO É FEITO O DIAGNÓSTICO DE DIABETES GESTACIONAL?


De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a OMS, o diagnóstico de diabetes mellitus gestacional pode ser realizado em qualquer momento durante a gravidez e deve ser baseado em qualquer um dos seguintes valores:6

* O TTGO deve ser realizado pela manhã, após um jejum noturno de pelo menos 8 horas. Primeiro é feita a dosagem de glicose plasmática em jejum (glicemia de jejum). E 1 e 2 horas após a gestante ingerir 75 g de glicose, a glicemia é dosada novamente.

(Adaptado de Diabetes Res Clin Pract 2014;103(3):341–63.6)


Acima desses valores, a condição é considerada como “diabetes diagnosticado durante a gravidez”.6


Os valores de diabetes gestacional se aplicam a qualquer momento durante a gravidez. No entanto, deve-se notar que em grávidas não obesas, a glicose plasmática em jejum diminui durante a gravidez em cerca de 0,5 mmol/l (9 mg/dl) até o final do primeiro trimestre ou no início do segundo. Consequentemente, o teste no início do primeiro trimestre usando um ponto de corte de 5,1 mmol/l (92 mg/dl) pode diagnosticar erroneamente diabetes gestacional em mulheres não obesas que têm valores próximos ao ponto de corte.6


Por outro lado, níveis mais altos de glicose plasmática em jejum no primeiro trimestre (mas ainda inferiores ao valor de corte para o diagnóstico de diabetes) estão associados a riscos aumentados de diagnóstico posterior de diabetes gestacional e resultados adversos na gravidez.6



MONITORAMENTO


A glicose materna é dinâmica e, ao longo das 24 horas, existem os altos e baixos da glicose que são determinados pelo equilíbrio entre a resistência à insulina e o estilo de vida, incluindo dieta, atividade física, gasto de energia, estresse, sono e trabalho.7 Refletindo essa fisiologia, recomenda-se o monitoramento em jejum e pós-prandial da glicose no sangue para atingir o controle metabólico em mulheres grávidas com diabetes. Os valores recomendados são:5


(Adaptado de American Diabetes Association. 14. Management of Diabetes in Pregnancy: Diabetes Care 2021;44(Suppl 1):S200–10.5)


O monitoramento pode ser feito através do medidor de glicose capilar e complementado com o monitoramento contínuo da glicose feito por um sistema automatizado:


Medidor de glicose


O uso de medidores de glicose é comum em consultórios médicos ou por pacientes para monitorar os níveis de glicose no sangue e estabelecer padrões de flutuações de glicose ao longo do tempo com o uso regular.


Com uma gota de sangue aplicada a uma tira de teste que se insere em um medidor, podemos estimar o nível de glicose plasmática. O simples uso do medidor também pode ajudar na identificação de episódios agudos de hipoglicemia ou hiperglicemia e ajudar os pacientes a planejar refeições, atividades e tratamento com insulina.


(Adaptado de Gurung P, Jialal I. Plasma Glucose. In: StatPearls [Internet].8)


Sistema automatizado de monitoramento contínuo da glicose



O monitoramento contínuo da glicose rastreia automaticamente os níveis de glicose ao longo do dia e da noite. Assim você pode ver rapidamente os seus valores a qualquer momento, e acompanhar como sua glicose muda em algumas horas ou dias para ver as tendências. Esses dados podem ajudar a tomar decisões mais certeiras sobre como equilibrar sua alimentação, atividade física e medicamentos.


O sistema automatizado de monitoramento contínuo da glicose, realiza até 288 medições por dia, e fornece um método mais objetivo de avaliar com precisão as variações de glicose no sangue.


(Adaptado de Scott EM, et al. Diabetes Care 2020;43(6):1178–84; NIH, Continuous Glucose Monitoring [Internet]. 7,9)


O recente estudo de monitoramento contínuo da glicose em mulheres com diabetes tipo 1 durante a gravidez (CONCEPTT) mostrou que quando comparado a glicemia automonitorada com medidores, o sistema de monitoramento contínuo da glicose foi associado a:7

  • Menor incidência de recém-nascidos grandes para a idade gestacional,

  • Menor incidência de hipoglicemia neonatal,

  • Menor incidência de admissão à unidade de terapia intensiva neonatal,

  • Glicose significativamente mais baixa (0,4-0,8 mmol/L [7-14 mg/dL]) por 7 h/dia,

  • Maior tempo na faixa-alvo de glicose na gravidez (3,5-7,8 mmol/L ou 63-140 mg/dL) com menor tempo hiperglicêmico.


Lembrando que o monitoramento contínuo de glicose pode ser usado como um complemento, mas não deve ser um substituto para o automonitoramento de glicose pré e pós-prandial.5



TRATAMENTO


O tratamento do Diabetes Gestacional é importante por diminuir os riscos de problemas na gravidez.3 Para isso, há muitas coisas que podem ser feitas para controlar o Diabetes Gestacional como, por exemplo, ir a todas as consultas de pré-natal e seguir o tratamento orientado pelo médico, que geralmente inclui:4



Comer alimentos saudáveis, ​​nas quantidades e momentos certos. Siga um plano de alimentação elaborado pelo médico ou nutricionista.




Ser ativa. A atividade física regular com intensidade moderada (como uma caminhada rápida) reduz o açúcar no sangue e melhora a ação da insulina, de forma que o corpo precisará de menores quantidades deste hormônio. Certifique-se de consultar o médico sobre o tipo de atividade física que você pode praticar e qual deve ser evitada.



Monitorar o bebê. Essa parte será realizada pelo seu médico que irá verificar o crescimento e o desenvolvimento do seu bebê durante as consultas.








Estudos sugerem que 70-85% das mulheres diagnosticadas com diabetes gestacional conseguem manter o controle do seu diabetes através das mudanças no estilo de vida.5 Mas, caso uma alimentação saudável e atividades físicas não forem suficientes para controlar o açúcar no sangue e, após 2 semanas de dieta, a glicemia ainda estiver elevada (≥ 95 mg/dL em jejum e ≥ 140 mg/dL 1 hora após a refeição ou ≥ 120 mg/dL 2 horas após a refeição), o médico poderá receitar o uso do medicamento específico para o seu caso.3,4



CUIDADOS NO PÓS-PARTO


No primeiro dia após o parto, o médico vai avaliar os níveis glicêmicos e pode suspender o uso de insulina. A glicemia, para maioria das mulheres, volta aos valores normais logo nos primeiros dias após o nascimento do bebê. Mesmo assim, todas as mulheres que tiveram Diabetes Gestacional devem realizar testes glicêmicos após 6 semanas do parto.3


Uma informação importante é que mulheres que tiveram Diabetes Gestacional têm maior probabilidade de desenvolver diabetes mellitus tipo 2 mais tarde na vida. Para ajudar a reduzir o risco de diabetes tipo 2, trazemos algumas dicas:3,4




Mantenha um índice de massa corporal saudável. A obesidade é um forte fator de risco para diabetes e perder até mesmo poucos quilos pode ajudar a prevenir o diabetes tipo 2.




Faça 30 minutos de atividade física por dia, pelo menos 5 dias por semana. Você pode dividir sua atividade em períodos menores, por exemplo, uma caminhada rápida de 10 minutos, 3 vezes ao dia.




Faça escolhas alimentares saudáveis. Coma frutas e vegetais variados, diminua a ingestão de gordura e limite o tamanho das porções para ajudar a melhorar a perda de peso e prevenir o diabetes tipo 2.




Dietas hipocalóricas durante o período de amamentação devem ser evitadas.





Outra dica é que o aleitamento materno é muito importante para a mãe e o bebê, pois está associado à prevenção do diabetes tipo 2 em mulheres com histórico de Diabetes Gestacional. E mantenha o acompanhamento da glicemia com seu médico para que ele possa avaliar se há necessidade de algum tratamento adicional.3



Referências:

1. Goyal A, Gupta Y, Singla R, Kalra S, Tandon N. American Diabetes Association “Standards of Medical Care-2020 for Gestational Diabetes Mellitus”: A Critical Appraisal. Diabetes Ther 2020;11(8):1639–44.

2. Dean L, McEntyre J. Gestational Diabetes. In: The Genetic Landscape of Diabetes [Internet]. National Center for Biotechnology Information (US); 2004.

3. Sociedade Brasileira de Diabetes. "Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes 2019-2020." (2019).

4. CDC. Gestational Diabetes [Internet]. 2020. Acesso em 12 jul 2021; Disponível em: https://www.cdc.gov/diabetes/basics/gestational.html

5. American Diabetes Association. 14. Management of Diabetes in Pregnancy: Diabetes Care 2021;44(Suppl 1):S200–10.

6. Diagnostic criteria and classification of hyperglycaemia first detected in pregnancy: a World Health Organization Guideline. Diabetes Res Clin Pract 2014;103(3):341–63.

7. Scott EM, Feig DS, Murphy HR, Law GR, CONCEPTT Collaborative Group. Continuous Glucose Monitoring in Pregnancy: Importance of Analyzing Temporal Profiles to Understand Clinical Outcomes. Diabetes Care 2020;43(6):1178–84.

8. Gurung P, Jialal I. Plasma Glucose. In: StatPearls [Internet]. StatPearls Publishing; 2020.

9. Continuous Glucose Monitoring [Internet]. Acesso em 11 ago 2021; Disponível em: https://www.niddk.nih.gov/health-information/diabetes/overview/managing-diabetes/continuous-glucose-monitoring